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domingo, 5 de setembro de 2010

Novo produto financeiro no mercado


O Banco Comercial do Atlântico acaba de lançar no mercado o BCA Factoring, um mecanismo financeiro que permite às empresas um melhor financiamento do seu ciclo de exploração através do adiantamento (pelo banco) de valores a receber de clientes (ver mais informações sobre o factoring aqui). Em Cabo Verde, o factoring é regulado pelo Decreto Lei nº 13/2005, de 7 de Fevereiro (B.O. nº 06, I Série).

Não obstante o crescimento do crédito concedido às empresas nos últimos 5 anos em Cabo Verde (de 30,3 milhões de contos em Dez/04 para 72,1 milhões de contos em Dez/09, conforme dados do BCV - valores nominais), o acesso ao crédito continua a ser destacado como um dos principais problemas enfrentados pelo sector privado, como o demonstra o Enterprise Survey 2009 do Banco Mundial. Entre as razões, apontam-se o elevado nível de garantias exigidas pelos bancos (em média 176,4% do total do empréstimo, contra 143% no resto do mundo e 142% na África Sub-Sahariana, conforme dados do Banco Mundial).

A aparente contradição entre esses dois dados (expansão do crédito ao sector privado versus percepção de dificuldade de acesso ao crédito) poderá ser justificado por alguma concentração do crédito bancário no segmento de empresas de grande dimensão, em termos de valor absoluto. Aliás, o próprio Enterprise Suvey indica que, entre as empresas de maior dimensão (> 100 empregados), o acesso ao crédito não aparece entre os 3 principais constrangimentos, sendo sobretudo as Pequenas e Médias Empresas (PME´s) as mais prejudicadas neste quesito - principalmente por não disporem de capacidade para apresentarem as garantias exigidas pelos bancos.

Há muito que as PME´s e os pequenos empreendedores vêm reclamando por soluções financeiras mais ajustadas à sua estrutura e às suas necessidades. O lançamento do factoring é, assim, uma boa notícia para as empresas caboverdeanas, sobretudo aquelas que têm que lidar, de um lado, com atrasos no recebimento de clientes, e do outro lado, com dificuldades em aceder a produtos bancários tradicionais para financiar o seu dia-a-dia enquanto o dinheirinho não entra no caixa.

Resta saber, no entanto, a burocracia e as exigências para se aceder ao factoring, bem como o preço que os bancos irão cobrar pelo serviço...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

BES vem aí... e daí?


O Banco Espírito Santo (BES), vai mesmo avançar com serviços on shore no sector bancário em Cabo Verde. Notícia do A Semana (edição de 18/06/2010) dá-nos conta que "a instalação do BES no mercado interno caboverdeano vai, num primeiro momento, cingir-se ao sector das empresas (...). Só mais tarde, consoante o evoluir da situação, poderá apostar no sector retalhista".

O que é que a entrada do BES significa para o país e o sector em particular? Em primeiro lugar, pode-se vislumbrar um "aquecimento" das contratações de pessoal da área, com possíveis movimentações entre os bancos. O BES deverá optar, naturalmente, por atrair quadros dos bancos já instalados - sobretudo BCA e Caixa Económica, com pessoal com mais anos de "estrada", mais experientes -, como forma de acelerar a composição da sua equipa, reduzir os custos com formação, e, desde logo, atacar os concorrentes "roubando-lhes" os seus talentos. No entanto, não se sabe ainda a dimensão da estrutura a ser implementada pelo BES, pelo que o número de vagas disponíveis ainda é uma incógnita.

Em segundo lugar, espera-se igualmente um acirramento da concorrência entre os bancos, especialmente no segmento "corporate", das empresas e instituições. Boa notícia para estes, portanto, que passam a dispôr de mais alternativas e - espera-se - de um nível de serviço mais adequado às suas necessidades.

Em terceiro lugar, a entrada do BES poderá acelerar a reestruturação do sector bancário em Cabo Verde, conforme referido nesta análise. Se pretenderem avançar para o segmento retalho, um dos cenários possíveis é a aquisição de uma estrutura já instalada, e neste caso, os possíveis "alvos" seriam ou o BCN ou o BI (que começou recentemente a alargar a sua rede de Agências), este, sobretudo no caso de a CGD ver indeferida a sua pretensão de fusão com o BCA.

Recorda-se que o BES já dispõe de uma filial off shore em Cabo Verde, tendo inclusive financiado projectos importantes, como o Vila Verde Resort, da Tecnicil

domingo, 20 de junho de 2010

Fusão BCA/BI

O jornal A Semana anunciou, na sua edição de 18 de Junho de 2010, uma possível fusão entre o BCA (Banco Comercial do Atlântico) e o BI (Banco Interatlântico). Esta intenção de fusão expressa sobretudo a vontade do sócio maioritário dos dois bancos (a portuguesa Caixa Geral de Depósitos), que detêm 52,5% do BCA e 70% do BI. Contudo, tal intento poderá esbarrar-se nas resistências não apenas dos accionistas nacionais dos dois bancos, mas sobretudo da entidade reguladora (BCV) e das autoridades caboverdeanas.

Não é de estranhar esta pretensão da CGD. De facto, não faz sentido estratégico ter participações substanciais em dois bancos que concorrem entre si num único mercado, ainda mais com as características de Cabo Verde. Resta saber se tal fusão é vantajosa para o país, e aqui tenho muitas dúvidas. Primeiro, porque iria aumentar substancialmente a força do banco resultante, reduzindo a competitividade no mercado, não obstante o crescimento da CECV (Caixa Económica de Cabo Verde) e do BCN (Banco Caboverdeano de Negócios). Segundo, porque tal fusão teria que levar necessariamente a racionalização de recursos - leia-se encerramento de balcões e despedimentos. Terceiro, porque o sector bancário passaria a ser fortemente controlado/influenciado por um banco estrangeiro (CGD) cujo accionista principal é o Estado. Questões de soberania, portanto.

A médio prazo, se perfilam dois cenários para o futuro do BI: ou as autoridades aceitam a fusão desejada pela CGD, ou esta venderá a sua participação no BI, ficando apenas com o BCA.

No que diz respeito ao sector bancário em Cabo Verde, duas tendências irão se desenhar nos próximos anos. A primeira é a da consolidação da banca. O mercado caboverdeano é muito pequeno e não comporta um número elevado de bancos. Aqui, além da possível fusão BCA/BI, o BCN (Banco Caboverdeano de Negócios) terá de crescer de forma sustentável (a forte expansão da sua rede de agências nos últimos anos terá que se traduzir em resultados concretos), sob pena de virar motivo de caça. Não esqueçamos que o BAI (Banco Africano de Investimentos) - que neste momento se concentra sobretudo no segmento "corporate" - poderá querer avançar de forma mais agressiva para a banca de retalho, e a aquisição de um banco já com uma boa rede de balcões poderá ser o caminho mais curto. E poder de fogo (dinheiro) é o que não lhes falta. E há a anunciada chegada do BES (Banco Espírito Santo, de Portugal) que poderá ter as mesmas ambições...

A segunda tendência é a internacionalização dos bancos caboverdeanos. Se a "briga" no mercado nacional se acirrar, não restará outra alternativa para os bancos de cá senão internacionalizarem-se. Quer em direcção aos países de forte presença da nossa diáspora, quer em direcção ao vibrante mercado do continente africano. Mas aqui a concorrência não é pêra doce... A pergunta que se coloca é: quem dará o primeiro passo?